1 de fev de 2017

Vick Vaporub


Estou nessa de resgatar histórias que não interessam a ninguém, mas...

Lá pelos idos de antigamente, na minha infância, não havia tanto remédio específico pra tudo que era mazela das crianças em fase de crescimento, como tem hoje em dia.

E uma outra coisa: hoje parece que sobraram poucas medicações que não sejam aplicadas via oral, em forma de comprimidos ou cápsulas. Antes não era bem assim, a gente tinha uns xaropes cor de rosa, umas pomadas básicas, e os temíveis supositórios também (minha mente seletiva apagou qualquer lembrança destes últimos).

Sendo assim, quando vinha um chiadinho no peito, uma gripe com tosse noturna, aquela coisa que todo mundo já passou... a mãe costumava passar o tal do Vick Vaporub na área do peito, antes de deitarmos na cama.

Eu acho que ele ainda existe por aí, mas talvez não seja a mesma fórmula que era, ou mesmo que for, tenho certeza que não era o Vick da mãe. O Vick da mãe era único.

O Vick da mãe me deu a primeira e talvez mais profunda experiência transcendente.

Eu devia ter uns oito anos. Era noitinha, hora de ir pra cama, eu tossia. Ela veio como sempre, passar o Vick no peito e imediatamente me vestir uma camisetinha branca de algodão com cheiro de sabão de côco, pra que eu não tomasse friagem depois da pomada. Eu deitada na cama, estava olhando ela fazer aquilo, meio distraída, meio prestando atenção nos movimentos. Aí aconteceu uma coisa, eu vou tentar minimamente descrever porque não é fácil. Enquanto ela passava aquele Vick eu sentia algo inexplicável entrando tão poderoso no meu peito infantil, com suavidade mas de um jeito tão intenso que me inundou, e me emocionei. Comecei a chorar de mansinho, ela preocupada perguntou se doía, eu disse não. Eu chorava porque tinha sido submersa em amor demais de uma só vez, e eu nem sabia que aquilo, aquela potência quase física, existia.

Há duas semanas atrás tive uma experiência semelhante. E como antes, foi tremendamente transformador.

Deve ser por isso que o senso comum, a sabedoria popular, tem todo um gestual e um vocabulário que envolve o coração, o peito, como morada dos afetos num sentido metafórico. Eu acho que mais que metafórico, é um local físico/energético onde cada célula armazena um tipo de ressonância com esses sentimentos, mas isso fica pro dr. Wilhelm Reich discorrer aos interessados.

O que eu sei é que, em algum lugar de mim, há tempos esquecidas, festejaram todas as moléculas canforadas nessa hora.