25 de ago de 2015




Entrei no metrô e olhando em volta, só havia o banco preferencial vazio... na falta de alguém mais habilitado a se sentar nele, esparramei meus 53 anos todos bem acomodados ali... e fiquei olhando pela janela a cidade cinzenta neste dia frio, estranhamente quieto, depois de duas semanas de sol fora de época.
Depois de duas estações, entrou uma senhora e me levantei para chamá-la a ocupar o assento. Ela declinou, insisti, ela declinou novamente com um sorriso serenamente irresistível. Usava uma saia florida vermelha pouco abaixo dos joelhos, sandálias havaianas nos pés, uma blusa de lã cor de tijolo com as mangas arregaçadas até os cotovelos, e carregava uma pequena sacola. Tinha os cabelos grisalhos à altura da nuca, presos por uma tiara preta.
Não sei dizer o que nela lembrava minha mãe... se a pele curtida pelos anos, se era apenas o olhar de quem já viu o bastante, ou se era aquela saia cheia de flores que desafiava toda a barbárie do mundo apenas por existir daquele jeito solto e leve, apesar do frio.
Fiquei olhando para ela furtivamente, quando um ou outro passageiro se afastava dando uma brecha entre nós duas. A lembrança da mãe apertando, e quando vi eu apertava a alça da bolsa sem perceber.
Depois de quatro estações, ela se moveu para sair do vagão... passou por mim e parou, segurou meu braço com firmeza mas ao mesmo tempo com carinho, e sorriu. Eu sorri de volta, segurei o braço dela com a mesma firmeza e ficamos por um instante interminável assim.
Ela saiu do vagão, me deixando esse presente. E era tudo.


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